Revisão aponta aumento da incidência de câncer em populações afetadas por desastres com petróleo

De forma geral, após o desaparecimento das manchas de óleo, as comunidades não são monitoradas pelas autoridades

Residentes de comunidades costeiras, pescadores e trabalhadores envolvidos na limpeza de derramamentos de petróleo podem enfrentar maior risco de desenvolver câncer após a exposição ao óleo. É o que revela artigo publicado na Revista Brasileira de Saúde Ocupacional por pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Santa Catarina (IFSC). A pesquisa reúne evidências de alterações genéticas e aumento na incidência de cânceres como de tireoide e leucemia em populações que enfrentaram esses desastres ambientais.

O estudo consiste em uma revisão de escopo de publicações científicas entre 1989 e 2025. De um universo inicial de 849 artigos, coletados em cinco bases de dados nacionais e internacionais, como PubMed e Web of Science, apenas nove foram selecionados por preencherem critérios específicos sobre o nexo entre desastres petrolíferos e câncer.

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A literatura científica da área revela que pescadores e moradores costeiros são os grupos mais vulneráveis por atuarem diretamente na contenção e limpeza de vazamentos, muitas vezes de forma improvisada, sem qualquer proteção profissional ou orientações técnicas.

O estudo mostra que, de forma geral, após o desaparecimento das manchas de óleo, as comunidades impactadas não são monitoradas pelas autoridades. Isso dificulta o reconhecimento de doenças crônicas relacionadas à exposição ao petróleo. É o caso dos pescadores artesanais atingidos pelo derramamento de óleo que alcançou mais de 3 mil quilômetros do litoral brasileiro entre 2019 e 2020, afetando praias, manguezais e ecossistemas marinhos de 11 estados.

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Acerca das evidências relacionadas a câncer, o artigo destaca o caso do afundamento do navio petroleiro Prestige, ocorrido em 2002 na costa da Galícia, no noroeste da Espanha. Cientistas identificaram alterações cromossômicas nos trabalhadores que persistiram por até seis anos, um sinal de alerta para o risco elevado de desenvolverem câncer.

A ausência de estudos longitudinais que acompanhem essas populações por décadas é uma das principais lacunas encontradas pelos pesquisadores, dado que o adoecimento em decorrência da contaminação pode não ser instantâneo. “A escassez de estudos de acompanhamento de longo prazo revela não apenas uma lacuna científica, mas também uma limitação na capacidade de monitorar e proteger adequadamente as populações expostas aos efeitos persistentes da contaminação ambiental”, destaca Charlene da Silva, uma das autoras da pesquisa e professora do IFSC.

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Os pesquisadores ressaltam a necessidade de estratégias de vigilância em saúde que integrem dados ambientais e indicadores clínicos contínuos, além da criação de protocolos de limpeza que priorizem a segurança ocupacional. O objetivo é impedir que a contaminação ambiental resulte em uma epidemia invisível de doenças graves nas populações litorâneas.

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