Levantamento inédito analisou mais de 329 mil notificações de acidentes com jararacas, cascavéis, corais e surucucus entre 2010 e 2022. Dados revelam desigualdades regionais e alertam para o atraso no atendimento como fator crítico para óbitos.
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Publicado na edição desta sexta-feira (17) da Revista do SUS (RESS), um estudo conduzido em parceria entre Ministério da Saúde, Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo (SES-SP), Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual Paulista (Unesp) e Instituto Butantan traçou o perfil das vítimas de acidentes com serpentes peçonhentas no país. A análise, que cobriu 13 anos de registros do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), aponta que homens concentram 77,8% dos casos, seguidos por pardos (58,4%), adultos entre 20 e 59 anos (76,3%) e moradores de áreas rurais (63,9%). Pessoas com menor escolaridade representam 48% dos acidentados.
A pesquisa avaliou 329 mil notificações e identificou 1.514 óbitos no período. As jararacas foram responsáveis pela maioria das mortes (74,2%), mas as cascavéis apresentaram a maior taxa de letalidade anual, ainda que baixa (0,1%). Geograficamente, as regiões Norte e Centro-Oeste concentram tanto o maior número de casos quanto as maiores taxas de mortalidade, evidenciando um abismo no acesso aos serviços de saúde. A sazonalidade também aparece nos dados, com picos de registros nos meses de maior pluviosidade.
A pesquisadora da SES-SP e autora do estudo, Gisele Dias de Freitas, afirma que o perfil das vítimas sugere uma forte ligação com a exposição ocupacional e com desigualdades sociais. Em áreas remotas, o tempo de chegada ao hospital é o principal obstáculo. Enquanto mais de 65% das vítimas de jararacas, cascavéis e corais receberam atendimento em até três horas, o índice cai para 44,1% entre os picados por surucucus, espécie cujos acidentes ocorrem frequentemente em locais de difícil acesso. O intervalo recomendado para administração do soro antiveneno é de até seis horas.
Freitas ressalta que, além das distâncias e da dependência de transporte fluvial ou terrestre, fatores culturais agravam o quadro, como a procura inicial por tratamentos caseiros ou a subestimação da gravidade do acidente.
O Brasil ocupa a terceira posição no ranking mundial de acidentes ofídicos, empatado com o Vietnã e atrás apenas de Índia e Sri Lanka. Desde 2019, o país aderiu à estratégia global da Organização Mundial da Saúde (OMS), que prevê a redução de 50% nas mortes e incapacidades causadas por serpentes até 2030.
Para a autora, a meta é viável devido à capilaridade da rede de vigilância, à oferta gratuita de soros antivenenos no Sistema Único de Saúde (SUS) e à abrangência nacional do sistema de notificações. O gargalo, segundo ela, continua sendo a garantia de atendimento rápido e adequado para populações rurais e ribeirinhas. O investimento contínuo em educação, acesso e pesquisas é apontado como caminho para subsidiar gestores na formulação de políticas públicas mais eficientes e focadas nos grupos mais vulneráveis.


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