O governo dos Estados Unidos convidou cerca de 60 países, incluindo o Brasil, para integrar uma coalizão internacional com o objetivo declarado de combater movimentos antifascistas e de esquerda considerados “violentos”. A cúpula está marcada para a próxima semana em Washington, sob a liderança do presidente Donald Trump, que já designou o grupo Antifa como alvo do combate ao terrorismo doméstico e aplicou restrições de visto a ativistas estrangeiros ligados ao movimento.
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O Itamaraty confirmou à reportagem que o Brasil foi convidado para o evento. A chancelaria brasileira, no entanto, ainda avalia a participação. O ministro Mauro Vieira tem uma reunião agendada com o chanceler canadense em Brasília, e a aproximação comercial entre os dois países é considerada estratégica, o que pode influenciar a decisão final. Governos como o da Argentina e da Índia também estão na lista de convidados.
O governo americano justifica a iniciativa como uma resposta ao “ressurgimento do terrorismo político”. Em maio deste ano, a administração Trump atualizou sua doutrina de combate ao terrorismo. O foco das agências de Washington, segundo documentos oficiais, são “grupos políticos seculares e violentos cuja ideologia é antiamericana, radicalmente transgênero ou anarquista, como o Antifa”.
A ofensiva contra esses grupos se intensificou no ano passado, quando Trump, em evento público, classificou a esquerda como uma ameaça à segurança nacional. “Deve ficar claro para todos os americanos que temos uma ameaça terrorista de esquerda muito séria em nosso país: radicais associados ao grupo terrorista doméstico Antifa”, afirmou o presidente à época.
O centro da estratégia americana é o Memorando de Segurança Nacional, de 25 de setembro de 2025, intitulado “Combate ao Terrorismo Doméstico e à Violência Política Organizada”. O documento cria uma Força-Tarefa Nacional Conjunta de Combate ao Terrorismo, com escritórios locais para coordenar investigações sobre atos de recrutamento ou radicalização que possam resultar em “violência política, terrorismo ou conspiração contra direitos”.
Entre as diretrizes do memorando está a instrução ao FBI para compilar uma lista de grupos ou entidades envolvidas em atos que possam constituir terrorismo doméstico. O texto também autoriza o Secretário do Tesouro a identificar e desmantelar redes de financiamento dessas organizações. A Procuradoria-Geral dos EUA já orientou autoridades policiais federais a priorizar investigações sobre movimentos antifascistas e a Antifa, bem como seus financiadores.
Relatores da Organização das Nações Unidas (ONU) enviaram uma carta à Casa Branca denunciando a tentativa de silenciar movimentos progressistas. O documento é assinado por Ben Saul, relator da ONU sobre direitos humanos no combate ao terrorismo; Morris Tidball-Binz, relator sobre execuções extrajudiciais; Gina Romero, relatora sobre o direito à liberdade de associação; Mary Lawlor, relatora sobre defensores dos direitos humanos; e Ana Brian Nougrères, relatora especial sobre o direito à privacidade.
Na carta, os especialistas manifestam preocupação com o que chamam de “foco vago” em terrorismo doméstico e violência política, aliado à perseguição de movimentos antifascistas. Segundo os relatores, a diretriz pode ser “usada indevidamente para perseguir ideologias e pontos de vista não violentos, particularmente os de esquerda, com os quais o governo Trump discorda”.
Os especialistas apontam que muitos dos exemplos e ideologias mencionados no memorando como supostas evidências de terrorismo não podem ser caracterizados como tal. Entre eles, atividades legítimas de protesto contra ações da polícia e da imigração, além de ideologias classificadas como “anti-americanas”, “anticapitalistas” ou “anticristãs”.
Os relatores da ONU alertam ainda que o uso do termo “terrorismo” para designar protestos domésticos pode legitimar o uso excessivo da força e outros abusos, como prisões e detenções arbitrárias. “A estigmatização injusta de críticos, dissidentes ou defensores dos direitos humanos tem um efeito inibidor destrutivo, induzindo à autocensura”, afirmam no documento.
A carta também critica a lista detalhada de crimes federais que os investigadores devem priorizar, observando que a maioria não envolve violência contra a pessoa. O documento menciona crimes associados ao policiamento de protestos, como obstrução, resistência à prisão, crimes contra o patrimônio e atividades online, além de crimes financeiros como fraude fiscal, postal ou eletrônica.


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