A gravidade dos sintomas sempre foi o principal critério para avaliar os efeitos da depressão no organismo. Mas um estudo conduzido por cientistas da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade de Oxford, no Reino Unido, indica que o tempo de duração da doença também desempenha papel central nas alterações estruturais do cérebro. Os resultados, divulgados em fevereiro, apontam que pacientes com mais de 24 meses de depressão apresentam padrões de conectividade distintos daqueles com quadros mais recentes.
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A pesquisa analisou imagens cerebrais de 46 pacientes com transtorno depressivo maior, condição grave marcada por tristeza persistente, desesperança e perda de interesse em atividades cotidianas. Os exames revelaram que a duração da doença está associada a mudanças na forma como duas redes funcionais importantes se comunicam: a Rede Executiva Central e a Rede de Modo Padrão. A primeira é responsável pelo controle executivo, incluindo atenção, planejamento e tomada de decisão. A segunda está ligada a processos internos, como autorreflexão e memória autobiográfica.
Em condições típicas, o cérebro alterna entre essas redes de maneira coordenada, com auxílio de uma terceira estrutura chamada rede de saliência. Na depressão, esse equilíbrio pode ser rompido. Segundo os autores, o descompasso favorece a predominância de pensamentos introspectivos, muitas vezes com viés negativo, o que ajuda a explicar a tendência à ruminação e a dificuldade de direcionar a atenção para o ambiente externo.
A região do pré-cúneo, que funciona como ponte entre as duas redes, foi o ponto central da análise. Em pacientes com episódios mais recentes, quanto mais graves os sintomas, mais fraca era a conexão entre a rede do foco externo e a da introspecção. Já nos casos de longa duração, observou-se o oposto: maior severidade dos sintomas correspondia a uma conectividade mais forte entre essas áreas. O achado sugere que as alterações cerebrais na depressão não são estáticas e podem evoluir com o tempo.
Os pesquisadores também investigaram o volume de massa cinzenta em duas regiões específicas: o córtex cingulado anterior, que atua na regulação emocional, e o córtex pré-frontal dorsolateral direito, ligado ao controle da atenção e ao processamento de emoções negativas. O estudo incluiu apenas pacientes que não estavam em uso de antidepressivos no momento da análise, o que permitiu investigar alterações cerebrais sem a interferência do tratamento farmacológico.
Os resultados estão alinhados com a hipótese de que o córtex pré-frontal esquerdo está mais relacionado ao processamento de emoções positivas, enquanto o direito estaria associado às negativas. O aumento de volume observado no lado direito reforça essa teoria, embora os autores reconheçam que a utilidade dessas alterações como marcador biológico da depressão ainda não tem consenso na comunidade científica.
Os dados de imagem utilizados no estudo integram um ensaio clínico coordenado pelo professor da USP André Brunoni, atualmente na University of Texas Southwestern Medical Center. As análises foram conduzidas durante o pós-doutorado de Tamires Zanão na Universidade de Oxford, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). A investigação também contou com financiamento dos projetos 12/20911-5, 22/03266-0 e 23/13893-5.
Para os autores, os achados podem contribuir no futuro para o desenvolvimento de tratamentos mais personalizados. Atualmente, a escolha da terapia para depressão envolve um processo de ajuste individualizado ao longo do tempo, já que a resposta varia consideravelmente entre os pacientes. Os pesquisadores ressaltam, no entanto, que mais dados são necessários antes que as informações obtidas possam orientar decisões médicas na prática clínica.


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