Miolo do bumba-meu-boi vira protagonista em documentário que estreia em São Luís

A sessão contará com a presença dos diretores Lauande Aires e Igor Nascimento, além do próprio Geovane, conhecido como Bomba, que verá o filme finalizado pela primeira vez.

Enquanto o boi entra no terreiro e a multidão segue o ritmo das matracas, pandeirões e orquestras, há um homem sustentando o brinquedo por dentro. Debaixo do couro bordado, escondido da maioria dos olhares, está o miolo do boi: a pessoa que dança, gira, corre e empresta corpo à fantasia. É desse lugar invisível que emerge a história de Geovane Correia, protagonista do documentário Bomba: no miolo da história, produzido pela Versobaiô. A pré-estreia acontece no dia 15 de maio, às 19h, no Cinema Sesc Deodoro, em São Luís. A sessão contará com a presença dos diretores Lauande Aires e Igor Nascimento, além do próprio Geovane, conhecido como Bomba, que verá o filme finalizado pela primeira vez.

O documentário acompanha Geovane em sua rotina, entre o trabalho, os encontros familiares, a religiosidade e a preparação para brincar o boi. O filme também revela as marcas físicas deixadas por décadas carregando o brinquedo no corpo. Para o diretor e pesquisador Lauande Aires, o documentário nasce como um gesto de reconhecimento e reparação simbólica. Segundo o diretor, o bumba-meu-boi é construído por muitas mãos, muitos corpos e muitas histórias que quase nunca aparecem. Ele destaca que Geovane representa tantos outros brincantes que sustentam a cultura popular há décadas, mas permanecem invisíveis para grande parte da sociedade. O diretor acrescenta que o documentário é uma forma de iluminar essas trajetórias, reconhecer a importância dessas pessoas e afirmar que elas também são protagonistas da memória e da identidade cultural do Maranhão.

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A origem do documentário está em uma cena difícil de esquecer. Em 2000, Geovane subiu de joelhos os 47 degraus da Capela de São Pedro carregando o boi nas costas, pagando uma promessa. A imagem inspirou o espetáculo teatral O Miolo da Estória, criado em 2010 por Lauande Aires e reconhecido nacionalmente ao integrar o circuito Palco Giratório do Sesc e receber o Prêmio Funarte Myriam Muniz. Agora, 16 anos depois, a história retorna às telas em forma de documentário. Desta vez, o filme se volta não apenas ao símbolo, mas ao homem por trás da fantasia, que ele carrega há mais de 46 anos em diferentes sotaques do bumba-meu-boi, como zabumba, baixada, matraca e orquestra.

Um rosto para quem sempre esteve escondido

Nascido em 1969, no bairro da Liberdade, Geovane Ribamar Correia cresceu cercado pela cultura do boi. Filho e neto de brincantes, começou cedo a participar da manifestação e passou por diferentes personagens, entre eles Pai Francisco, Catirina, Cazumba, Burrinha e Vaqueiro, até encontrar no miolo sua forma definitiva de brincar. Ao longo da vida, conciliou os festejos juninos com trabalhos informais e a rotina da periferia de São Luís. Mesmo convivendo hoje com dores nos joelhos, braços, ombros e pescoço, continua brincando movido pela fé, pela memória familiar e pelo compromisso com a tradição.

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Homem preto, trabalhador periférico e brincante popular, Geovane representa tantos outros personagens fundamentais da cultura maranhense que permanecem anônimos, apesar de sustentarem a força e a permanência dessas manifestações. O documentário transforma essa presença invisibilizada em memória, registro e protagonismo.

Sobre o filme

Misturando elementos do documentário poético, etnográfico e participativo, Bomba: no miolo da história atravessa os bastidores do bumba-meu-boi para revelar suas dimensões humanas, espirituais e sociais. A câmera acompanha não apenas o espetáculo, mas o cotidiano de quem dedica a vida à cultura popular. O filme é uma realização da Produtora Versobaiô e integra as ações de contrapartida do projeto, realizado com apoio do Edital nº 04/2024 – UGCADC/SECMA Mais Produção Audiovisual – Curta Metragem, Governo do Maranhão e Lei Paulo Gustavo.

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Serviço

A pré-estreia de Bomba: no miolo da história será no dia 15 de maio de 2026, uma sexta-feira, às 19h, no Cinema Sesc Deodoro, localizado na Avenida Silva Maia, nº 164, Centro, Praça Deodoro, em São Luís (MA). A entrada é gratuita.

Versobaiô em maio

A pré-estreia integra o calendário “Versobaiô em Maio”, programação dedicada ao bumba-meu-boi como linguagem artística, narrativa e audiovisual. Ao longo do mês, o projeto promoveu atividades como ateliê de criação de personagens, roda de conversa com bordadeiras do Quilombo da Liberdade, leitura pública de roteiro e oficina de dramaturgia.

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Sobre os diretores

Lauande Aires é ator, dramaturgo, roteirista, diretor e brincante. Mestre em Artes Cênicas pela UFMA, pesquisa o ator-brincante e as relações entre corpo, narrativa e cultura popular maranhense. É criador do espetáculo O Miolo da Estória e coautor da peça Atenas, Mutucas, Boi e Body. Igor Nascimento é poeta-dramaturgo, roteirista e cineasta. Doutor em Artes da Cena pela Unicamp e mestre em Cultura e Sociedade pela UFMA, desenvolve trabalhos que articulam cinema, dramaturgia e cultura popular. É vencedor de cinco prêmios na Mostra Maranhão na Tela pelo curta Fora do Ar.

Sobre a Versobaiô

A Versobaiô nasce do encontro entre literatura, audiovisual e cultura popular maranhense. Criada por Igor Nascimento e Lauande Aires, desenvolve projetos voltados à memória, às narrativas populares e às expressões artísticas do Maranhão, com atuação no teatro, cinema, dramaturgia e produção cultural.

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