Completam-se cem anos do nascimento de Milton Santos, e o Brasil ainda não aprendeu tudo o que ele tinha a ensinar. Filho da Bahia, negro, perseguido por uma ditadura que nunca tolerou a inteligência crítica a serviço dos de baixo, Milton Santos construiu uma das obras mais importantes já produzidas em solo brasileiro. E o fez, em grande parte, de longe, expulso de seu próprio país por generais que temiam exatamente o que ele representava: o pensamento que nomeia a desigualdade, que a localiza no mapa, que recusa aceitá-la como destino.
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Celebrar o centenário de Milton Santos é um ato político de reconhecer que a história intelectual do Brasil é também uma história de violências impostas a quem ousou pensar fora da ordem. O exílio foi a resposta do Estado autoritário a um homem que compreendia, com rigor científico e consciência de classe, as entranhas do capitalismo periférico. Em vez de silenciá-lo, o exílio o globalizou. Lecionou em universidades da França, dos Estados Unidos, do Canadá, da Venezuela, da Tanzânia. Publicou em francês obras que refundaram os estudos urbanos críticos. Devolveu ao mundo, enriquecido, o pensamento que o Brasil havia desperdiçado.
Quando finalmente retornou, em 1977, com a ditadura já cambaleante, encontrou resistências para se reinserir na academia que havia ajudado a construir. A lógica que persegue e depois ignora é velha conhecida das elites brasileiras. Milton Santos enfrentou-a com a dignidade de quem sabe que a obra fala mais alto que qualquer portaria ou cabresto institucional. Chegou à Universidade de São Paulo em 1983 e lá construiu o capítulo mais fértil de sua produção.
Sua teoria dos dois circuitos da economia urbana, o conceito de meio técnico-científico-informacional, a crítica à globalização como fábula que encobre a barbárie, tudo isso não é apenas contribuição acadêmica. É, antes de tudo, uma tentativa de oferecer aos mais pobres, aos moradores das periferias, aos trabalhadores informais, aos países do Sul, um vocabulário para compreender a própria exploração. Em “Por uma Outra Globalização”, publicado um ano antes de sua morte, Milton Santos não se contentou em denunciar. Propôs. Apontou a possibilidade concreta de um mundo organizado a partir das necessidades humanas, e não das exigências do mercado.
É por isso que sua obra não envelhece. Pelo contrário, ela se atualiza a cada nova rodada de desigualdade, a cada favela que a especulação imobiliária empurra ainda mais para a margem, a cada agronegócio que expulsa comunidades para exportar commodities, a cada plataforma digital que privatiza o território da informação. Como observou o presidente do IBGE, Marcio Pochmann, Milton Santos foi um intelectual comprometido com a transformação do Brasil. Não com a sua descrição fria e distante, mas com a sua mudança efetiva.
Há algo profundamente simbólico no fato de que o primeiro intelectual do hemisfério Sul a receber o Prêmio Vautrin Lud, o mais alto reconhecimento da geografia mundial, foi um homem negro, baiano, filho de uma região que o Brasil historicamente tratou como periferia de si mesmo. Milton Santos carregava no corpo e na trajetória as contradições que escolheu estudar. Sua geografia nunca foi apenas ciência. Foi também testemunho.
Cem anos depois de seu nascimento em Brotas de Macaúbas, o legado de Milton Santos permanece como um convite incômodo e necessário: que a inteligência brasileira se coloque a serviço daqueles que o capitalismo insiste em deixar para trás. Que o espaço seja compreendido não como palco neutro, mas como arena de disputas, onde cada mapa esconde uma escolha política e cada fronteira urbana revela uma hierarquia social.
O Brasil tentou silenciá-lo. Não conseguiu. E talvez esse seja o ensinamento mais urgente que ele nos deixou.


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