A biodiversidade amazônica pode ter a resposta para uma doença que acomete peixes e gera prejuízos para a aquicultura brasileira. Um estudo da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), publicado nesta sexta (7) na revista científica Brazilian Journal of Biology, aponta que, em testes laboratoriais, uma fração do extrato da folha de pariri (Fridericia chica) eliminou bactérias com um desempenho superior ao de antibióticos comerciais.
✅ Seja o primeiro a ter a notícia. Clique aqui para seguir o novo canal do Cubo no WhatsApp
Os testes laboratoriais avaliaram 54 isolados bacterianos recuperados de tambaquis de fazendas de criação da Ilha do Maranhão, provenientes de um quadro de aeromonose – uma infecção bacteriana que pode provocar hemorragias, úlceras e lesões de pele. O uso incorreto de medicamentos não autorizados nas águas de cultivo acelerou a seleção de linhagens multirresistentes da bactéria Aeromonas.
“A aeromonose é uma das principais causas de mortalidade na aquicultura brasileira”, explica Nancyleni Pinto Chaves Bezerra, médica veterinária e porta-voz da pesquisa da UEMA. “Surtos dessa doença causam prejuízos vultosos devido a interrupções na atividade produtiva, custos elevados com tratamentos, descarte de lotes e perda de competitividade no mercado.”
Mas faltam opções de tratamento seguras. Não há nenhum antibiótico liberado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária que seja focado no tambaqui nativo (Colossoma macropomum), e a aplicação indiscriminada de antibióticos na água leva à evolução do patógeno oportunista, transformando tanques de piscicultura em incubadoras de superbactérias.
O processo desenvolvido pela equipe uniu a química de produtos naturais à microbiologia para isolar a ameaça e testar as folhas da planta pariri macerada, extraindo compostos com atividade direta contra a infecção.
Como resultado, uma fração do extrato da folha fresca inibiu o crescimento das bactérias testadas mesmo em uma concentração muito baixa, superando o poder da gentamicina, um antimicrobiano padrão de amplo espectro.
“Esses resultados representam um passo inicial na bioprospecção de compostos bioativos no tratamento de uma doença que resulta em impactos tão severos”, destaca Nancyleni. “Poderemos confirmar essa fração como um composto poderoso contra isolados multirresistentes com a utilização de baixas concentrações, reduzindo a toxicidade e a sobrecarga de órgãos nos animais e sem causar danos ao meio ambiente.”
Para uma avaliação preliminar de toxicidade, os cientistas aplicaram a substância em larvas do inseto Tenebrio molitor. O teste in vivo registrou alta taxa de sobrevivência dos organismos nas concentrações mais baixas testadas, o que aponta para um perfil inicial de baixa toxicidade aguda no modelo utilizado. Os próprios autores ressaltam, porém, que esse tipo de teste com invertebrados terrestres oferece apenas uma indicação preliminar, e que a segurança do composto para organismos aquáticos e vertebrados ainda precisa ser confirmada em estudos futuros.
Os próximos passos da pesquisa incluem isolar e entender melhor os compostos responsáveis pelo efeito antimicrobiano, além de testar sua segurança em animais vertebrados — etapas necessárias antes que o extrato possa ser considerado uma opção viável para uso na aquicultura.


Deixe um comentário