O Supremo Tribunal Federal (STF) deu aval à abertura de um inquérito para investigar suspeitas de evasão de divisas, lavagem de dinheiro e corrupção relacionadas aos repasses financeiros feitos pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro ao filme “Dark Horse”, produção sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro. A decisão foi formalizada após manifestação favorável da Procuradoria-Geral da República (PGR), enviada ao ministro André Mendonça, relator do caso, na quarta-feira (22).
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O pedido de diligência partiu da PGR e foi incorporado à manifestação que já sinalizava a necessidade da apuração formal. A Polícia Federal (PF) havia solicitado a abertura do inquérito em 8 de julho, com base em indícios extraídos de conversas tornadas públicas em 13 de maio. Na ocasião, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, aparece pedindo recursos a Vorcaro para financiar o filme sobre o pai.
Além do senador e do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), a investigação abrange a atuação do publicitário Thiago Miranda, alvo de suspeitas da PF por supostamente coordenar ataques ao Banco Central a mando do banqueiro, e de sócios brasileiros do fundo Entre Investimentos e Participações e da holding Havengate Development Fund LP. A PF também deverá levantar as emendas parlamentares de autoria do senador Flávio Bolsonaro para verificar se alguma delas beneficiou o Banco Master.
Até o momento, não foram determinadas diligências como buscas e apreensões ou quebras de sigilos, uma vez que a presença de investigados com foro especial exigia a autorização prévia do Supremo. Com o aval concedido, a equipe responsável pelo caso passará a avaliar a motivação real dos repasses, cujo montante chegou a R$ 61 milhões. Um áudio de setembro de 2025, divulgado no curso das apurações, mostra o senador do PL cobrando mais recursos do ex-banqueiro.
O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, já havia sinalizado em entrevista no mês passado a necessidade de instaurar um inquérito sobre o envio de recursos ao exterior sob a justificativa de financiar o filme. Uma das linhas de investigação é apurar se os valores teriam bancado despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, onde ele reside desde fevereiro de 2025, hipótese negada pelo ex-deputado. A PF também quer saber se os recursos foram utilizados em outras ações de aliados do ex-presidente Bolsonaro junto ao governo do presidente americano, Donald Trump.
Os recursos teriam sido transferidos pela Entre Investimentos e Participações, empresa com ligações com Vorcaro, a um fundo controlado por aliados de Eduardo e sediado no Texas. Em nota divulgada à época da revelação do financiamento pelo site Intercept Brasil, Flávio Bolsonaro classificou como “falsa” a insinuação de que os valores teriam sido destinados diretamente ao irmão, afirmando que os aportes foram direcionados a um fundo específico da produção cinematográfica, com estrutura jurídica própria e fiscalização nos Estados Unidos.
Em manifestação pública nesta quinta-feira (23), em live, Flávio Bolsonaro afirmou respeitar a Polícia Federal e elogiou a instituição, mas fez críticas à atual gestão da corporação e classificou a investigação como “perseguição desproporcional”. Ele declarou que não adiantaria explicar os pontos um a um, pois, segundo ele, não haveria irregularidades, mas que a “atmosfera” de suspeita é criada em seu entorno.
Eduardo Bolsonaro, por sua vez, já havia chamado de “tosca”, em maio, a suspeita da PF de que recursos de Vorcaro teriam custeado sua permanência nos EUA. Ele afirmou que seu status migratório à época vedava o recebimento de valores e que explicou às autoridades americanas “toda a origem” dos seus recursos, sem ter enfrentado problemas, pois não exerceu posição de gestão ou emprego no fundo, tendo apenas cedido seus direitos de imagem.
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, respondeu à solicitação da PF na terça-feira (21), identificando elementos suficientes para a abertura formal do inquérito. O presidente do STF, Edson Fachin, definiu no fim de junho que o ministro André Mendonça permaneceria como relator do caso. A PGR ainda pediu, no mesmo documento, a checagem de outros processos já abertos para verificar se há menção aos fatos agora investigados.


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