Oposição lança ofensiva no Congresso e no STF contra decreto que endurece regras para big techs

Medida do governo Lula que amplia responsabilidades das plataformas digitais entrou em vigor sob forte pressão; parlamentares protocolam projetos para sustar a norma e acionam Supremo

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) colocou em vigor, nesta segunda-feira, o Decreto nº 12.975/2026, que altera a regulamentação do Marco Civil da Internet e amplia os deveres das big techs no combate a crimes, fraudes e golpes no ambiente digital. A medida, no entanto, já enfrenta uma ofensiva coordenada da oposição no Congresso Nacional e no Supremo Tribunal Federal (STF), sob o argumento de que o Executivo teria usurpado a competência do Legislativo e criado riscos à liberdade de expressão.

A norma editada pelo Planalto estabelece novas obrigações para plataformas digitais, redes sociais e provedores de internet. Entre os principais pontos, está a responsabilização preventiva das empresas por conteúdos relacionados a crimes graves, como terrorismo, exploração sexual de crianças e adolescentes e violência contra mulheres. O decreto também confere à Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) a competência para fiscalizar e aplicar sanções relacionadas ao cumprimento das regras, e dá à Advocacia-Geral da União (AGU) o poder de notificar plataformas para a remoção de publicidade enganosa ou fraudulenta sobre políticas públicas . Além disso, determina a criação de canais específicos para denúncias e a retirada de conteúdos íntimos não consentidos em até duas horas.

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A reação da oposição ocorre em duas frentes. No Congresso, parlamentares apresentaram Projetos de Decreto Legislativo (PDLs) para sustar os efeitos do decreto. No Senado, tramitam em conjunto os PDLs 398/2026, de Rogério Marinho (PL-RN); 460/2026, de Magno Malta (PL-ES); 467/2026; e 470/2026, de Esperidião Amin (PP-SC). Os projetos, que aguardam designação de relator na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), buscam preservar a competência do Congresso para definir o regime jurídico das plataformas e proteger a liberdade de expressão.

Nesta segunda-feira, senadores da oposição protocolaram um requerimento de urgência para o PDL 470/2026. Se aprovado, o projeto poderá ser votado diretamente no plenário, sem passar pela CCJ. O autor do pedido, senador Esperidião Amin, classificou a medida como uma tentativa de regulamentar a censura no Brasil. Em pronunciamento, ele afirmou que o decreto extrapola o poder regulamentar do Executivo e cria mecanismos que podem induzir as plataformas à remoção preventiva de conteúdos. “Exercitar o poder de censura do Estado, um poder iníquo e não constituído por lei e muito menos pela Constituição, é uma conspiração contra a liberdade de expressão”, declarou Amin, segundo a Agência Senado.

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Na Câmara dos Deputados, o PDL 454/2026, de autoria do deputado Mauricio Marcon (PL-RS), também tenta sustar os decretos 12.975 e 12.976. O texto argumenta que o governo não poderia, por decreto, criar um novo regime jurídico ou instituir deveres não previstos em lei. “Qualquer disciplina sobre plataformas digitais, moderação de conteúdo e proteção de direitos no ambiente virtual deve ser construída por meio de lei formal, democraticamente debatida e constitucionalmente legítima”, diz trecho da justificativa.

Disputa chega ao STF

Paralelamente à movimentação no Legislativo, a disputa chegou ao Supremo Tribunal Federal. O PRD acionou a Corte para tentar derrubar o decreto e pediu que a ação fique sob a relatoria do ministro Dias Toffoli, que participou do julgamento sobre a responsabilidade das plataformas digitais.

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O embate ocorre em meio à tentativa do governo de avançar na regulação das big techs após decisões do STF que ampliaram a discussão sobre a responsabilidade das plataformas por conteúdos ilícitos. Para o secretário de Políticas Digitais da Secom, João Brant, os decretos são constitucionais e apenas atualizam a regulamentação existente para enfrentar uma “epidemia de fraudes no ambiente digital”. Ele citou como exemplo o uso de políticas públicas, como o Bolsa Família e o ENEM, para aplicar golpes.

Expectativa de votação em agosto

Com a entrada em vigor dos decretos, a oposição intensifica a pressão para votar os PDLs em agosto, durante a primeira semana de esforço concentrado do Congresso. A expectativa é que a matéria seja prioridade, mas a tramitação depende do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), que pode convocar uma sessão extraordinária ou pautar o tema na volta do recesso.

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Apesar da defesa pública do governo, integrantes do Planalto ouvidos reservadamente admitem que parte das medidas pode enfrentar dificuldades para se manter em vigor diante da mobilização da oposição. O decreto, que já está em vigor, se tornou um novo ponto de confronto entre o Executivo, o Legislativo e as big techs, em um debate que opõe a necessidade de combate a crimes digitais ao temor de restrições à liberdade de expressão.

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