Mulheres negras ganham metade e trabalham o dobro: o Brasil que os índices não mostram

A pesquisa cruza indicadores de educação, renda, trabalho, moradia e infraestrutura sob uma perspectiva que conecta raça e gênero.

O Brasil gosta de celebrar seus avanços. Índices macroeconômicos sobem, discursos oficiais se enchem de otimismo e governos de diferentes matizes exibem com orgulho as melhorias nos indicadores sociais. Mas há uma pergunta que esse otimismo teima em não responder: avanços para quem?

O novo Índice de Justiça Econômica Racial, divulgado pelo Fundo Agbara com apoio da Fundação Volkswagen e co-realização da ActionAid, responde com uma crueza que deveria envergonhar o país. As mulheres negras seguem presas na base da pirâmide. Não por acaso. Não por falta de esforço. Mas por uma arquitetura social construída tijolo a tijolo ao longo de séculos de escravidão, exclusão e silêncio institucional.

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Em 2022, mulheres negras receberam, em média, apenas 59% do rendimento dos homens. Quando a comparação é feita com homens brancos, a brutalidade da disparidade se torna ainda mais nítida: a renda domiciliar per capita delas era de R$ 1.191,66, contra R$ 2.381,43 deles. É quase a metade. Não estamos falando de uma diferença estatística fria. Estamos falando da diferença entre pagar aluguel e ficar na rua, entre colocar comida na mesa e passar fome, entre ter futuro e sobreviver o presente.

No mercado de trabalho, a desigualdade não é residual: é estrutural. A taxa de desocupação entre mulheres negras chegou a 10,8% em 2023, mais que o dobro dos 4,8% registrados entre homens brancos. Apenas um terço delas possui carteira assinada no setor privado. E quando trabalham, é frequentemente dentro das casas alheias, sem registro, sem direitos, sem reconhecimento. Em 2023, 12,4% das mulheres negras estavam no trabalho doméstico sem carteira assinada. Entre os homens brancos, esse número era de 0,4%. A divisão racializada do trabalho não é herança do passado: é política do presente.

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Há ainda o peso invisível do cuidado. Sessenta e cinco por cento de todo o trabalho doméstico e de cuidado não remunerado no Brasil é realizado por mulheres. Se esse trabalho fosse contabilizado economicamente, acrescentaria cerca de 13% ao PIB nacional. Mulheres negras dedicam em média 22,3 horas semanais a esse esforço que a economia insiste em não enxergar. São horas que não constam em nenhuma folha de pagamento, mas sustentam silenciosamente a vida de famílias, comunidades e do próprio Estado.

Nas casas onde moram, a precariedade também é raça. Mulheres negras têm até três vezes mais chance de viver em domicílios sem banheiro do que mulheres brancas. Mais de 31% delas vivem em situações precárias de esgotamento sanitário. Em 2023, 37% ainda não tinham máquina de lavar roupa em casa, contra 15% das mulheres brancas. São dados que revelam não apenas pobreza, mas o endereço preciso onde o racismo ambiental se instala, determinando quem respira ar poluído, quem bebe água contaminada, quem não tem onde secar a roupa depois de um dia inteiro lavando a roupa dos outros.

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O estudo é preciso ao afirmar que essas desigualdades não são acidentais. São resultado de processos históricos de marginalização racial que determinam quem acessa moradia digna, serviços públicos e proteção ambiental. E é igualmente preciso ao apontar os limites dos indicadores tradicionais: PIB, IDH e Índice de Gini não enxergam raça, não enxergam gênero, não enxergam território. Medem uma média que esconde quem fica para trás.

O que o Índice de Justiça Econômica Racial nos diz é que o Brasil avançou sem redistribuir. Cresceu sem reparar. Incluiu sem transformar. E que enquanto isso não mudar, enquanto políticas públicas não partirem do reconhecimento explícito de que raça e gênero são eixos centrais da desigualdade brasileira, nenhum crescimento econômico será suficiente para mover essa pirâmide.

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