Não é novidade que a transformação digital avança sobre o mercado de trabalho em velocidade impressionante. O que deveria ser uma promessa de democratização de oportunidades, no entanto, tem funcionado na prática como mais um mecanismo de reprodução das desigualdades brasileiras. A razão, como argumenta o especialista Sérgio Ricardo Cerrada, é simples e incômoda: o Brasil ainda trata a inclusão digital de forma superficial.
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Para Cerrada, economista e coordenador de Relações Governamentais da Escola da Nuvem, o equívoco está em reduzir o problema à ausência de infraestrutura. “Não basta estar conectado”, afirma. Em sua experiência com iniciativas de empregabilidade e inclusão produtiva, ele observa diariamente pessoas com acesso à internet, mas sem as habilidades necessárias para transformar essa conexão em oportunidade real. “Falta formação, falta direcionamento e, principalmente, falta conexão com o mercado de trabalho. Isso cria uma nova camada de exclusão, mais invisível, mas igualmente limitante.”
O diagnóstico é que insistir em políticas focadas apenas na expansão da conectividade é, nas palavras do especialista, “enxugar gelo”. A inclusão digital verdadeira exige uma jornada completa: acesso, alfabetização digital, capacitação técnica e, finalmente, empregabilidade. E é nesse ponto que o papel do poder público precisa ser repensado. Não como mero provedor de cabos e antenas, mas como indutor de políticas estruturadas, financiador de iniciativas e articulador de uma aliança entre governo, sociedade civil e setor privado.
A experiência mostra, segundo Cerrada, que o governo sozinho não consegue dar conta da escala e da complexidade do problema. “Os melhores resultados que já acompanhei vieram de modelos colaborativos”, diz. As organizações da sociedade civil chegam onde as políticas públicas não chegam, com agilidade e proximidade dos territórios. O setor privado, por sua vez, traz tecnologia, inovação e, sobretudo, a demanda real por talentos. Condição fundamental para que a formação não termine num certificado sem destino.
Quando esses três atores se conectam, o impacto deixa de ser pontual e se torna estrutural. E é assim, defende Cerrada, que se constroem jornadas completas, que não param no curso, mas chegam ao emprego. E isso muda tudo. Porque inclusão digital, no fundo, não é sobre tecnologia. É sobre oportunidade. E também sobre economia: formar talentos em tecnologia é uma das formas mais concretas de enfrentar o desemprego estrutural, aumentar a produtividade e preparar o país para competir globalmente. Tratar essa agenda como secundária é, para ele, um erro estratégico.
Claro que os entraves são reais. A fragmentação de iniciativas, a burocracia no acesso a recursos públicos e a dificuldade de escalar projetos ainda limitam o impacto de ações que já provaram funcionar. Além disso, ainda se avança pouco na mensuração consistente de resultados.
É por isso que Cerrada aponta iniciativas como a Escola da Nuvem como exemplo concreto de que o modelo colaborativo pode funcionar de forma efetiva e escalável. Atuando na geração de empregos por meio da formação de talentos em tecnologia, a organização conecta capacitação técnica, desenvolvimento de habilidades comportamentais e aproximação direta com o mercado, especialmente para públicos historicamente excluídos da economia digital. Mais do que uma solução isolada, a Escola da Nuvem se posiciona como parceira estratégica para governos que desejam avançar em políticas públicas de inclusão produtiva.
O caminho, segundo o especialista, já existe. O Brasil tem instrumentos, organizações capacitadas e uma demanda urgente por inclusão produtiva. O que falta é coordenação, continuidade e prioridade. “Inclusão digital precisa ser tratada como política de Estado. E a formação de talentos, como uma agenda central para o desenvolvimento do país”, afirma Cerrada. “A pergunta que fica não é mais se devemos agir, mas como vamos fazer isso em escala.”
Porque continuar tratando inclusão digital apenas como acesso é, na prática, aceitar que milhões de brasileiros e brasileiras fiquem à margem das oportunidades que já estão sendo criadas. E esse, conclui Cerrada, é um custo que o Brasil não pode mais sustentar.


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