Documentos obtidos pela reportagem mostram que o espanhol Oliver Ortiz de Zarate Martin, condenado no Brasil por tráfico internacional de drogas e lavagem de dinheiro, foi um dos investidores por trás da operação de compra do Banco Master pelo empresário Daniel Vorcaro.
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A informação foi revelada ao ICL Notícias por uma fonte que atua no mercado financeiro e acompanhou de perto as negociações. A reportagem teve acesso a documentos de transações financeiras, autos de processos judiciais e registros da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) que corroboram as afirmações.
De acordo com a fonte, o elo entre o narcotraficante e Vorcaro é o operador do mercado financeiro Benjamim Botelho de Almeida, apontado pela Polícia Federal como sócio oculto e operador financeiro de Vorcaro nos Estados Unidos.
Morador de um condomínio de luxo na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro, Ortiz foi preso em 2013 e condenado a 16 anos de prisão. No ano passado, a Polícia Federal notificou o criminoso de que ele seria expulso do país, depois que cumprisse a pena definida pela Justiça brasileira.
A triangulação financeira
Botelho mantém vínculos com a corretora Sefer Investimentos (antiga Foco Distribuidora de Título e Valores Mobiliários – DTVM), alvo em janeiro da segunda fase da Operação Compliance Zero, sob suspeita de integrar esquema de repasse de recursos para negócios ligados à família de Vorcaro.
A Sefer era administradora de fundos vinculados ao Grupo Aquilla, que tinha Botelho como principal executivo e do qual Ortiz aparece como um dos investidores. Foi por meio de um fundo pertencente ao grupo que o narcotraficante investiu na compra do Banco Máxima em 2017, de acordo com a fonte.
Segundo a mesma pessoa entrevistada, Ortiz tinha centenas de milhões investidos em fundos do Grupo Aquilla. A reportagem teve acesso a documentos que confirmam que o narcotraficante era cotista desses fundos. Por causa do sigilo bancário, não foi possível confirmar o valor investido.
“Recursos que foram utilizados na constituição dos fundos imobiliários – os principais produtos da atual Sefer (e também na aquisição do Banco Master) que era a instituição financeira que faltava ao Grupo Aquilla para estender as ramificações de suas negociações e negociatas – são oriundos de lavagem de dinheiro do traficante Oliver Ortiz”, acrescentou a fonte.
O esquema fraudulento
De acordo com as investigações da Polícia Federal, que tramitam no Supremo Tribunal Federal, o esquema fraudulento do Banco Master inclui a aquisição de empresas de baixo valor para, em seguida, inflar artificialmente os resultados financeiros dessas empresas, fazendo crer que elas valem mais do que seu real preço.
Os autos da Operação Compliance Zero citam Benjamim Botelho como participante do esquema: “Utilização de interpostas pessoas/empresas de prateleira – as transações frequentemente envolveram empresas com ligações diretas ou indiretas com Daniel Vorcaro, Benjamim Botelho e outros indivíduos-chave, levantando sérias preocupações sobre conflitos de interesses e possíveis benefícios indevidos”.
Em decisão assinada em 6 de janeiro, quando ainda era relator do caso, o ministro Dias Toffoli decretou que Benjamim Botelho e a Sefer fossem alvos da segunda fase da operação.
Antecedentes criminais
A conexão entre Vorcaro e Botelho é investigada pelas autoridades antes da eclosão do atual escândalo do Banco Master. A Compliance Zero apura fraudes relacionadas a investimentos de fundos de previdência de servidores de estados e municípios. De acordo com a Polícia Federal, R$ 2 bilhões foram aplicados no Banco Master.
Em 2020, Vorcaro e Botelho foram alvos de outra operação da PF, a Fundo Fake, que já investigava o mesmo tipo de operação fraudulenta quando o banco ainda se chamava Máxima. No celular apreendido de Daniel Vorcaro na Operação Compliance Zero, há trechos dos autos da Operação Fundo Fake em que os nomes dos três são citados.
Benjamim Botelho chegou a ser denunciado pelo Ministério Público Federal pelos crimes de gestão fraudulenta do Banco Máxima, no período de 2014 a 2016. De acordo com as investigações, o banco teria usado o fundo de investimento Aquilla Veyron FIM para simular a valorização de investimento da instituição, maquiando a “grave insuficiência de capital”.
A atuação de Oliver Ortiz no Brasil
O espanhol Oliver Ortiz foi preso em junho de 2013 no Rio de Janeiro, aos 35 anos. Ele foi condenado à pena de 16 anos de prisão pelos crimes de lavagem de dinheiro e tráfico internacional de drogas. As investigações apontaram que ele atuava no crime ao menos desde 2009, liderando estrutura hierarquizada de envio de cocaína para a Europa, eminentemente por via marítima.
Para lavar o dinheiro do tráfico, Ortiz passou a adquirir imóveis no Brasil, declarados abaixo do valor real, usou empresas de fachada e registrou bens em nome de laranjas. A investigação comprovou que o narcotraficante era dono de coberturas tríplex na Barra da Tijuca, casas noturnas e restaurantes no Rio de Janeiro.
Ortiz aparece na lista de cotistas de fundos administrados pela antiga Foco DTVM (atual Sefer Investimentos), em documento datado de 30 de outubro de 2015. Dois anos após ter sido condenado por tráfico de drogas pela Justiça brasileira.
Segundo a fonte, Ortiz também estava por trás do fundo Aquilla Veyron FIM e do Brazilian Multimarketing Investiments LLC, uma offshore sediada nas Bahamas.
Terrenos e fundos imobiliários
A Aquilla aparece vinculada a Oliver Ortiz em um processo que tramita no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, envolvendo dois terrenos em Queimados, na Baixada Fluminense. O Ministério Público Federal aponta que 20% de cada terreno pertencia a Oliver e já havia sido bloqueado judicialmente em 2013.
Parte desses imóveis foi usada em operações financeiras envolvendo fundos imobiliários. Além disso, o MPF destaca que Oliver recebeu transferências de recursos, adquiriu cotas de fundo imobiliário no valor de R$ 1,49 milhão e participou de transações que envolveram a transferência de direitos sobre imóveis e a entrada de bens ou dinheiro como capital em fundos, incluindo o Aquilla.
Posicionamento dos envolvidos
O ICL Notícias procurou a assessoria de imprensa do Banco Master, que não respondeu aos questionamentos. Benjamim Botelho foi procurado por email, assim como Oliver Ortiz. Nenhum dos dois enviou resposta. A reportagem não conseguiu contato com Yan Hirano, citado como a pessoa que teria apresentado o narcotraficante a Benjamim Botelho. O espaço segue aberto para manifestação.


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