Há um roteiro previsível na engrenagem da direita radical brasileira. Ele começa com um fato trágico no exterior, passa pela histeria seletiva de seus influenciadores e termina na tentativa de destruição de vidas e empregos aqui dentro. A mais recente performance do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) é um capítulo perfeito (e profundamente cínico) desse manual.
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O parlamentar, que possui um exército digital de milhões, lançou uma cruzada moral para que empresas demitam sumariamente qualquer pessoa que tenha postado comentários sobre a morte do influenciador de extrema-direita norte-americano Charlie Kirk. Sob o mantra perigoso de “eles são livres para dizerem, mas as empresas são livres para demitir”, Nikolas atua como um “cancelador”, expondo nomes, rostos e empregos de cidadãos comuns ao ódio de sua massa de seguidores. Ironicamente, a direita fez campanha antes para o fim do “cancelamento” na internet e pela liberdade de expressão.
Aparentemente, é uma defesa intransigente da vida e da civilidade. Até que se olhe para o passado. Até que se lembre das palavras do mesmo Nikolas Ferreira, em 2022, a respeito do brutal assassinato político da vereadora Marielle Franco. “Caguei para a Marielle”, disse ele, com uma frieza que corta a alma. “Ela não é uma pessoa flor que se cheire. Não é porque morreu que virou santo”.
Aqui, expõe-se não uma mera contradição, mas a essência de um projeto político. A vida, para essa visão de mundo, tem valor hierárquico. A morte de um ideólogo estrangeiro, alinhado à sua causa, é uma tragédia de proporções épicas, um crime que deve ser punido não apenas pela Justiça, mas por um tribunal midiático e corporativo. Já a morte de uma parlamentar negra, favelada, LGBTQIAP+, defensora dos direitos humanos e brutalmente executada em uma chacina política que ainda clama por respostas, é tratada com obsceno desdém.
Não se trata de defender a apologia à violência, de qualquer lado que seja. Trata-se de denunciar a seletividade espúria. A comoção de Nikolas e de sua rede não é pela vida de Charlie Kirk; é pela vida de um Charlie Kirk. É a defesa da vida de quem se alinha ao seu espectro ideológico. A morte do outro, do dissidente, daquela que representava tudo o que eles combatem, é não apenas irrelevante, mas motivo de deboche.
É a política do “nós” contra “eles” levada ao seu extremo mais perigoso. É a mesma lógica que alimenta a máquina de ódio nas redes sociais, que justifica a violência e que, não por acaso, culmina em assassinatos como o de Marielle e, agora, o de Kirk. Uma lógica que Nikolas Ferreira alimenta: primeiro, ao desumanizar uma vítima de seu próprio país; depois, ao instrumentalizar a morte de um estrangeiro para acuar opositores e ampliar seu capital político.
Enquanto isso, a pergunta que não cala, a que realmente importa, segue sem resposta: quem mandou matar Marielle Franco? Essa pergunta, inconvenientemente, não gera engajamento milionário nem campanhas de cancelamento. Ela apenas assombra a consciência de uma nação que ainda precisa escolher entre o culto à personalidade e a defesa intransigente de toda e qualquer vida, sem distinção. A escolha de Nikolas, fica claro, já foi feita. E é a pior possível.


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