📝 Este é um editorial do Portal Cubo.
As opiniões aqui expressas refletem a visão do Cubo e têm como objetivo promover o debate crítico sobre temas relevantes à sociedade.
A história de Adriana Smith, a enfermeira negra mantida artificialmente viva por quatro meses após uma morte cerebral devido à draconiana lei antiaborto da Geórgia, nos EUA, é um retrato cruel do que acontece quando o Estado se arroga o direito de decidir sobre os corpos das mulheres, especialmente das mulheres negras e pobres, em nome de uma suposta “defesa da vida”.
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Adriana já não existia mais. Seu cérebro havia parado de funcionar em fevereiro, vítima de múltiplos coágulos. Mas, por causa da LIFE Act — lei que proíbe abortos após seis semanas de gravidez, mesmo em casos de estupro, incesto ou risco de vida —, seu corpo foi transformado em uma incubadora contra a vontade da família. Seus entes queridos foram obrigados a assistir, impotentes, à agonia de ver seu cadáver sustentado por máquinas, enquanto o feto era mantido à força em um útero sem vida.
O bebê, Chance, nasceu prematuro, com apenas 830 gramas, e agora luta pela vida em uma UTI neonatal. A avó, April Newkirk, pede orações, mas também deixa claro: essa não era a escolha da família. “Esta decisão deveria ter sido deixada para nós”, lamentou. E ela tem razão. O que aconteceu com Adriana é a materialização de um projeto político que, sob o discurso de “proteger a vida”, nega autonomia, dignidade e até o direito ao luto.
Os mesmos legisladores que se dizem “pró-vida” não se importam com as consequências de suas leis. O senador Ed Setzler, autor da legislação, aplaudiu o hospital por “salvar uma vida inocente”, mas ignora o sofrimento infligido a uma família negra, o risco de sequelas graves para o bebê e o fato de que Adriana foi reduzida a um objeto, um mero recipiente.
Esse caso escancara a misoginia e o racismo estrutural por trás das leis antiaborto. Mulheres negras, historicamente violentadas pelo Estado — desde a escravidão até a esterilização forçada —, são as mais afetadas por essas políticas. Enquanto mulheres ricas viajam para abortar com segurança, as pobres são submetidas a torturas como a de Adriana.
A verdadeira “cultura da vida” não se resume a fetos; inclui mães, crianças já nascidas e famílias inteiras. Se quisessem proteger vidas, os conservadores garantiriam saúde pública, creches e apoio social. Mas não é sobre vida — é sobre controle.
Adriana Smith merecia morrer em paz. Seu filho mais velho merecia se despedir. Chance merecia nascer em outras circunstâncias. Até quando seguirão usando mulheres como campos de batalha ideológica?
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