A cena foi surreal. Na Sala Oval da Casa Branca, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, interrompeu seu homólogo sul-africano, Cyril Ramaphosa, para exibir um vídeo que, segundo ele, provaria o “genocídio branco” na África do Sul. A alegação, amplamente desmentida por especialistas e pelo próprio governo sul-africano, é mais uma peça da estratégia trumpista de alimentar o medo, o racismo e a desinformação para fins políticos.
O encontro, que deveria tratar de comércio e cooperação, transformou-se em um espetáculo grotesco. Trump insistiu em suas falsas narrativas sobre assassinatos em massa de agricultores brancos, ignorando que a violência na África do Sul atinge majoritariamente a população negra, herdeira de séculos de colonialismo e apartheid. Quando Ramaphosa tentou contextualizar, Trump o interrompeu com a frase reveladora: “Os agricultores não são negros.”
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A declaração não é apenas falsa — é sintomática. O que Trump realmente quis dizer é que, para ele, só as vidas brancas importam. Sua obsessão com um suposto “genocídio branco” ecoa teorias conspiratórias da extrema-direita global, que distorcem a realidade para justificar políticas xenófobas e reforçar a supremacia branca.
A Hipocrisia da “Defesa” dos Brancos Sul-Africanos
Desde seu retorno à presidência, Trump tem atacado as reformas agrárias da África do Sul, que buscam corrigir as desigualdades históricas deixadas pelo apartheid. Até hoje, a maioria das terras produtivas do país permanece nas mãos da minoria branca, enquanto a população negra, maioria esmagadora, segue excluída. A expropriação de terras para redistribuição — medida adotada dentro da legalidade e em prol da justiça social — é retratada por Trump como uma “caça aos brancos”.
A ironia é cruel. O mesmo governo que persegue imigrantes latino-americanos, separa famílias na fronteira e nega asilo a refugiados de guerras patrocinadas pelos EUA agora se apresenta como defensor dos afrikaners (descendentes de colonos europeus), concedendo-lhes status de refugiado. Não é sobre proteger vidas — é sobre alimentar um mito racista de “opressão branca” para mobilizar sua base eleitoral.
O Ataque à Soberania Sul-Africana
A hostilidade de Trump não para aí. Seu governo já expulsou o embaixador sul-africano, Ebrahim Rasool, acusando-o de “odiar a América”. O motivo real? A África do Sul ousou denunciar Israel por genocídio em Gaza no Tribunal Internacional de Justiça. Para Washington, qualquer país que desafie seus aliados ou suas narrativas deve ser punido.
Ramaphosa saiu da reunião sem ceder às provocações, mas o episódio deixa claro: a diplomacia de Trump não se baseia em fatos ou no respeito entre nações, mas em preconceitos e interesses eleitoreiros. Enquanto isso, os EUA perdem credibilidade global, e a África do Sul — assim como outros países do Sul Global — segue buscando parcerias mais justas, longe da arrogância de uma potência em declínio.
O que resta é uma lição: em um mundo cada vez mais multipolar, o discurso racista e a desinformação não passarão sem resposta. A África do Sul, assim como outras nações, não aceitará ser humilhada por um presidente que prefere espalhar ódio a construir pontes. A verdade, mais cedo ou mais tarde, vencerá.
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