Novos ídolos, velhas narrativas: A falácia da perseguição cristã

Gaiman, com sua sagacidade literária, nos convida a questionar o que realmente veneramos em nossa sociedade hiperconectada e capitalista.

Neil Gaiman, em sua obra Deuses Americanos, nos presenteia com uma reflexão profunda sobre a natureza mutável da idolatria. Ele nos mostra como os deuses antigos, representantes de forças naturais e espirituais, foram substituídos por novos ídolos: o Estado, a internet, a mídia, o mercado financeiro. Esses novos deuses, efêmeros e ruidosos, são tão demandantes de devoção quanto os antigos, mas com uma diferença crucial: eles não oferecem sentido existencial, apenas consumo e distração. Gaiman, com sua sagacidade literária, nos convida a questionar o que realmente veneramos em nossa sociedade hiperconectada e capitalista.

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No entanto, um jornalista bolsonarista nos apresentou um texto onde tenta usar essa reflexão para defender uma narrativa de perseguição ao cristianismo, algo que, embora possa ecoar em certos círculos, carece de fundamentação histórica e social. A ideia de que o cristianismo está sob ataque “selvagem” é uma retórica que ignora o contexto de privilégio que essa religião desfrutou — e ainda desfruta — em grande parte do mundo ocidental. O cristianismo não só moldou a cultura e as instituições do Ocidente, como também foi, em muitos momentos, um instrumento de opressão e exclusão. Portanto, falar de perseguição em um contexto onde igrejas ainda detêm poder político, econômico e cultural é, no mínimo, uma distorção da realidade.

O caso do taxista alemão Jalil Mashali, multado por exibir um versículo bíblico em seu carro, é citado como exemplo dessa suposta perseguição. No entanto, é importante contextualizar: a multa não foi aplicada por ele ser cristão, mas porque a legislação local proíbe a exibição de propaganda religiosa em veículos que desempenham funções públicas. Essa regra existe para garantir a neutralidade em serviços que devem ser acessíveis a todos, independentemente de credo. Não se trata de um ataque à fé, mas de uma tentativa de equilibrar direitos e deveres em uma sociedade plural.

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A crítica ao que o bolsonarista chama de “revolução da cintura para baixo” — uma alusão às pautas progressistas relacionadas à sexualidade e identidade de gênero — revela uma visão reducionista e moralista. Equiparar a luta por direitos civis e igualdade a uma “vida vazia” é ignorar o fato de que essas batalhas são, em sua essência, por dignidade humana. A espiritualidade, seja ela cristã ou não, não pode ser usada como desculpa para negar direitos ou invalidar a existência de quem não se encaixa em padrões tradicionais. A verdadeira riqueza espiritual está na capacidade de amar e respeitar o próximo, não em julgar ou excluir.

Quanto ao argumento de que “não se pode tirar Deus da política”, é preciso lembrar que o Estado laico é uma conquista civilizatória. A separação entre religião e Estado não é um ataque à fé, mas uma garantia de que todas as crenças — ou a falta delas — possam coexistir em igualdade. Quando religiões dominantes tentam impor seus valores através do Estado, o resultado é a exclusão e a opressão de minorias. A política deve ser guiada por princípios universais de justiça e equidade, não por dogmas religiosos.

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Por fim, a ideia de que o mundo nunca foi tão “pagão” quanto hoje e que o cristianismo “vencerá” novamente através de seus mártires soa como uma tentativa de reviver um passado idealizado. A história do cristianismo é marcada tanto por momentos de resistência quanto por períodos de dominação. Hoje, o desafio não é lutar contra uma suposta perseguição, mas aprender a coexistir em um mundo cada vez mais diverso. A verdadeira espiritualidade não se mede pela capacidade de impor crenças, mas pela capacidade de dialogar, compreender e transformar.

Em suma, enquanto Gaiman nos convida a refletir sobre os ídolos que escolhemos venerar, o texto em questão nos leva a um beco sem saída, onde a crítica aos ídolos modernos se transforma em defesa de um status quo religioso que não está disposto a abrir mão de seus privilégios. A verdadeira revolução espiritual não está na manutenção de dogmas, mas na construção de um mundo onde todas as formas de existência sejam respeitadas. E isso, definitivamente, não é uma tarefa para deuses antigos ou novos, mas para seres humanos dispostos a evoluir.

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