Universitários pretos relatam maior perda dentária e falta de acesso em serviços odontológicos

Racismo e saúde bucal: estudo revela desigualdades no acesso a serviços odontológicos entre universitários negros

Desfechos negativos associados à saúde bucal e ao acesso a serviços odontológicos são mais comuns entre indivíduos autodeclarados pretos e pardos, segundo estudo realizado por pesquisadores da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) com graduandos da instituição. Universitários com histórico de racismo interpessoal ou moradores de municípios com maior nível de segregação racial (indicador de racismo estrutural) relataram maior dificuldade no acesso ao atendimento, que também foi pior avaliado. Além disso, residentes de áreas com melhores condições sociais apresentaram melhor percepção de saúde bucal e menos perdas dentárias, além de uma visão positiva acerca dos serviços prestados e seu acesso. As conclusões foram publicadas na Revista de Saúde Pública em março.

Visando analisar o papel do racismo na saúde bucal e no acesso a serviços odontológicos, um questionário online foi respondido por 686 estudantes da UFJF, maiores de 18 anos. Nele, foram coletados dados demográficos e socioeconômicos, sobre a saúde bucal dos respondentes — incluindo sua autopercepção, possíveis comprometimentos e perda dentária — e sobre o acesso e a percepção de qualidade de serviços odontológicos, como seu uso e avaliação. Também foram analisados o histórico de discriminação interpessoal e a percepção do ambiente em termos de desordens físicas e sociais, mensurando impactos de racismo estrutural.

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A autopercepção negativa da saúde bucal foi 56% maior em pretos e 53% em pardos, em comparação com indivíduos autodeclarados brancos, enquanto a perda dentária foi duas vezes maior entre indivíduos pretos. A falta de acesso a serviços odontológicos foi três vezes maior para pretos e quase quatro vezes maior (3,78) para pardos. Além disso, aqueles que sofreram discriminação racial estiveram quatro vezes mais propensos a sofrer a falta de acesso aos serviços odontológicos, 74% mais propensos a não utilizar o serviço e 51% mais propensos a avaliar negativamente o atendimento.

Rafaela de Oliveira Cunha, coautora do estudo e pesquisadora da UFJF, ressalta que a amostra estudada é de estudantes universitários — que, teoricamente, apresentam maior acesso, letramento e oportunidade em saúde, o que significa que a prevalência de desfechos negativos poderia ser ainda maior na população em geral. Ainda, relata que os resultados reforçam o impacto do racismo inclusive na formação na área de saúde bucal. “Os resultados devem despertar claras reflexões nos futuros profissionais, de como sua prática pode minimizar o ‘peso’ que a população preta/parda historicamente carrega em nosso país”, aponta.

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A pesquisadora ressalta que, como contribuição paralela ao estudo, foi publicado um ensaio discutindo racismo em saúde bucal na revista da Associação Brasileira de Ensino Odontológico, além de elaborada uma cartilha denominada Manual Antirracista para Profissionais de Saúde, que pode ser encontrada neste link. Ela também relata que estão sendo conduzidos estudos aprofundando os achados, avaliando o impacto da interseccionalidade com gênero, diferentes orientações sexuais e convivência com HIV/aids.

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