O custo diário do cuidado de crianças e adolescentes negros em acolhimento durante crises de saúde mental é cerca de R$100 menor que a média nos serviços públicos. Além disso, cada ano a mais de idade do paciente aumenta o custo do tratamento em R$13,68 por dia. É o que aponta um estudo com participação da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e publicado no dia 26 de março na Revista de Saúde Pública. Os achados podem orientar estratégias mais eficientes de alocação de recursos em ações de prevenção e tratamento.
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Para avaliar os fatores associados ao custo do cuidado em crises de saúde mental infanto-juvenil no Brasil, a equipe realizou uma análise econômica com 399 pacientes atendidos pela primeira vez em hospitais gerais, Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e CAPS III – serviços de saúde mental com leitos para acolhimento noturno. Os dados são referentes aos atendimentos realizados em 2023 em quatro capitais brasileiras: Campo Grande, Curitiba, Rio de Janeiro e São Paulo. Os custos diretos e indiretos de cada internação, incluindo medicamentos, exames e materiais, trabalho administrativo, transporte e evasão escolar, foram calculados com base em sistemas oficiais e estudos prévios. Também foram coletadas informações sociodemográficas, como idade, raça e gênero.
Em média, o custo diário total por paciente foi de R$1.097,97, mas o investimento dos serviços em usuários pretos e pardos foi R$102,60 menor. “Considerando que a maior parte dos custos relacionados aos cuidados analisados estão diretamente relacionados ao atendimento dos profissionais de saúde, esse dado sugere que o público negro infanto-juvenil passa por menos atendimentos do que a população não negra”, explica Nathalia Nakano Telles, autora do trabalho. Para ela, esse achado traz um alerta importante. “Isso indica que o racismo estrutural reverbera e se apresenta no cuidado em saúde mental prestado a crianças e adolescentes nos serviços de saúde”, defende.
Outros fatores sociodemográficos também se mostraram associados a variações no custo médio. Entre eles, a idade do usuário. “Cada ano a mais das crianças e adolescentes implica um aumento de R$13,68 no custo diário, o que revela que o cuidado precoce tende a ser mais vantajoso”, destaca a pesquisadora. A maior variação positiva no custo diário foi observada entre pacientes que buscaram o serviço por uso de drogas, com aumento de R$125,82 em relação à média. Valor semelhante foi registrado nos casos associados a situações de vulnerabilidade, com acréscimo de R$124,12 por dia.
O estudo também identificou o principal perfil dos usuários de serviços de saúde mental entre zero e 18 anos: meninas cisgênero e pacientes com diagnósticos relacionados a comportamento suicida e alterações de humor. “A predominância de meninas na amostra pode estar relacionada à maior aceitação da busca por ajuda entre o sexo feminino, em uma cultura machista em que meninas tendem a ser mais compreendidas e menos julgadas ao expressar sentimentos e fragilidades”, avalia Telles. “Também é importante considerar que meninas são expostas desde cedo a diferentes formas de violência de gênero, o que pode contribuir para o adoecimento mental”, acrescenta. A pesquisadora também chama atenção para a baixa presença de pessoas transgênero na amostra. “Ainda existem muitas barreiras de acesso para essa população, que precisam ser enfrentadas com serviços de saúde mais acolhedores e comprometidos com a equidade”, afirma.
Além de reforçar a necessidade de combater o racismo estrutural, ampliar a atenção a populações em vulnerabilidade e investir em ações de prevenção para otimizar custos e atendimentos, o estudo aponta a articulação dos serviços de saúde como um fator essencial. Pacientes encaminhados por outro serviço tiveram custo diário reduzido em R$139,86. “A pesquisa mostra que o cuidado em rede reduz os custos e evidencia fragilidades que precisam ser enfrentadas e superadas”, afirma Telles. Ela ressalta que os resultados podem contribuir para uma alocação mais eficiente dos recursos em saúde.


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