Rafael Luciano Mello*
Uma pesquisa recente, disponível na rede de pesquisadores Cochrane, analisou 73 ensaios clínicos, totalizando cerca de 5.000 pessoas com depressão, e apontou que a atividade física reduz sintomas depressivos de maneira significativa quando comparada à ausência de tratamento.
✅ Seja o primeiro a ter a notícia. Clique aqui para seguir o novo canal do Cubo no WhatsApp
Mais interessante ainda é que, em muitos cenários, o exercício apresenta eficácia semelhante à de antidepressivos e psicoterapia, especialmente em quadros leves a moderados. Isso não significa substituir tratamentos tradicionais, mas reconhecer que o movimento é uma intervenção terapêutica legítima — e subutilizada. Essa nova evidência traz resultados que corroboram outros estudos robustos, previamente publicados em revistas de alto impacto, como JAMA Psychiatry e BMJ.
A relação entre atividade física e depressão deixou de ser apenas uma intuição popular. Hoje, trata-se de um campo sólido de investigação científica, com evidências robustas mostrando que mover o corpo pode ser uma ferramenta poderosa no enfrentamento de uma das condições de saúde mais incapacitantes do mundo.
Do ponto de vista biológico, a relação benéfica da atividade física com os sintomas de depressão possui algumas explicações:
- Aumento da neuroplasticidade, estimulando a produção de BDNF, uma proteína essencial para a saúde dos neurônios.
- Regulação dos neurotransmissores como serotonina, dopamina e noradrenalina, todos envolvidos no humor.
- Redução da inflamação sistêmica, um fator associado ao desenvolvimento e manutenção da depressão.
- Melhora do sono, frequentemente prejudicado em quadros depressivos.
- Promoção da sensação de autonomia e competência, elementos psicológicos fundamentais para a recuperação.
Ou seja, o exercício atua simultaneamente no corpo, no cérebro e no comportamento — uma combinação rara e valiosa.
Apesar dos benefícios, é preciso reconhecer um ponto essencial: a depressão rouba energia, motivação e iniciativa. Dizer a alguém deprimido “basta se exercitar” é não compreender a natureza da doença. Por isso, é preciso enfatizar a importância de programas supervisionados, metas graduais, atividades prazerosas e acessíveis, bem como apoio social, seja de um amigo, familiar ou profissional da saúde.
De modo geral, atividades de intensidade moderada, como caminhada, ioga ou tai chi, têm se mostrado mais eficazes. No entanto, treinos de força, dança e ciclismo também podem funcionar, desde que o(a) praticante consiga manter uma rotina de atividades físicas minimamente estável. Em outras palavras, mais importante do que o tipo da atividade praticada é a adesão ao comportamento ativo.
Por fim, as evidências deixam claro que o exercício não substitui medicamentos ou psicoterapia em casos moderados a graves. A depressão é multifatorial, complexa e, muitas vezes, resistente. Mas ignorar o papel da atividade física seria desperdiçar uma intervenção de baixo custo, poucos efeitos colaterais e benefícios amplos.
Como mensagem final, é necessário frisar que a depressão é uma doença séria, mas o movimento oferece algo que nenhum comprimido entrega sozinho: a sensação de retomada do próprio corpo e da própria vida. E isso, como mostram os estudos, tem um impacto profundo.
*Rafael Luciano Mello é mestre em Educação Física, na linha de pesquisa Atividade Física e Saúde, e professor dos cursos de graduação em bacharelado e licenciatura em Educação Física no Centro Internacional Universitário UNINTER.


Deixe um comentário