O Arquivo Público do Estado do Maranhão, guardião de documentos que narram séculos de nossa história, há dez meses está condenado ao abandono. Trata-se de um silencioso e criminoso estado de coisas, onde papéis que resistiram a impérios, revoluções e ao próprio tempo agora estão à mercê da umidade, da burocracia e da mais pura inércia do governo do Maranhão.
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A promessa de um local provisório, anexo ao antigo colégio Marista, tornou-se um espelho da gestão pública atual: anúncios grandiosos desidratam-se na sequência, esvaziados pela falta de ação concreta. Enquanto a Secretaria de Cultura promete, o período chuvoso se aproxima. Enquanto protocolos são discutidos, documentos do século XVII aguardam, impassíveis, uma mudança que não chega. A fala angustiada de Regina Faria, presidente da Associação dos Amigos do Arquivo, ecoa como um alerta solitário: “Já estamos em novembro”. O relógio da história corre contra a indiferença do Estado.
Os entraves citados (a certificação do Corpo de Bombeiros, a instalação de estantes, a simples roçagem do mato) não são meros detalhes técnicos. São a materialização de um descaso que é, antes de tudo, político. É a crônica de uma morte anunciada: a da memória coletiva. Em um estado com as profundas contradições sociais do Maranhão, o que significa deixar a história apodrecer? Significa, em última análise, negar ao povo o direito à sua própria identidade. É uma forma de apagamento.
O problema, contudo, vai além da burocracia. A solução proposta, uma estrutura metálica inadequada para a conservação de acervos históricos, é emblemática. É o retrato de uma política de cortes e de soluções paliativas, que trata a cultura como despesa, não como investimento. É a mesma lógica que, em âmbito federal, drena recursos da área e desmonta sistematicamente as políticas de preservação. Como bem pontua Regina, não se guarda a memória do século XVII em um contêiner. Isso não é uma solução; é uma capitulação.
A localização do anexo, em área considerada vulnerável, é outro elemento que não pode passar em branco. Restringe o acesso, intimida pesquisadores e servidores, e afasta a população comum do contato com sua história. É a cultura sendo empurrada para as margens, literalmente.
Este caso não é uma exceção. É a regra de um projeto de poder que não dialoga com as necessidades profundas do povo. A verdadeira obra não é a que restaura apenas as paredes de um prédio, mas a que valoriza o que há dentro dele: a alma de um estado. Enquanto a memória for tratada como um estorvo, enquanto a cultura for a última das prioridades, estaremos construindo um futuro sobre o frágil alicerce do esquecimento. O Arquivo Público do Maranhão clama por socorro. Sua voz são os papéis silenciosos que podem se perder para sempre. Cabe a nós dar-lhes eco.


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