📝 Este é um editorial do Portal Cubo.
As opiniões aqui expressas refletem a visão do Cubo e têm como objetivo promover o debate crítico sobre temas relevantes à sociedade.
A polarização política, fenômeno tão característico de nosso tempo, tem produzido uma distorção perigosa e, quando observada de perto, profundamente irracional. O cidadão comum, imerso no turbilhão de notícias e redes sociais, desenvolveu um mecanismo peculiar de filtragem da realidade. O mesmo fato, dependendo de como é enquadrado, pode ser recebido com indignação universal ou com uma defesa ferrenha e passionista.
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Vejamos o exemplo concreto: uma notícia com a manchete “Prefeitura de São Luís deixa de repassar recursos do Fundo da Criança e do Adolescente”. A reação do público tende a ser de consenso. Nos comentários, há uma condenação quase unânime. É um absurdo, é inaceitável que o poder público negue recursos essenciais para programas sociais que atendem aos mais vulneráveis. A “Prefeitura”, como entidade abstrata, não encontra defensores.
Agora, tomemos o mesmo fato, mas com um enquadramento diferente: “Gestão de Eduardo Braide não repassa dinheiro do Fundo da Criança e do Adolescente”. Subitamente, a lógica se inverte. A crítica objetiva ao descumprimento de uma obrigação de Estado dá lugar a um “show de defesa” da imagem do político. Os argumentos se multiplicam: “É mentira da oposição”, “Ele herdou um rombo”, “Em outras áreas ele está fazendo”. A falha administrativa deixa de ser um problema coletivo e se transforma em um ataque pessoal a ser rebatido.
Esse fenômeno, aparentemente “engraçado” como bem observado, é, na verdade, um sintoma grave do adoecimento de nosso debate público. Ele revela duas questões centrais.
A primeira é o esvaziamento do conceito de “bem público”. A “Prefeitura” representa a res publica, a coisa de todos. Quando a criticamos, estamos defendendo um interesse coletivo. No entanto, quando a crítica se personaliza, um setor do debate para de enxergar o bem comum e passa a defender um projeto de poder. O que importa não é mais se as crianças e os adolescentes estão sendo atendidos, mas se o “meu” político está sendo desgastado. A política, que deveria ser a arena de disputa por projetos de sociedade, se reduz a uma torcida clubística, onde os fins justificam os meios e os erros do “meu time” são sempre menores ou compreensíveis.
A segunda questão é a ressurreição da figura do coronel, agora revestida de um carisma midiático. Estamos criando novos “cabos eleitorais” digitais, que defendem o líder não por uma troca de favores material imediata, mas por uma identificação ideológica e emocional tão profunda que se assemelha à idolatria. O político deixa de ser um gestor público, um funcionário bem ou mal pagado para administrar a cidade, e se torna um ícone, uma bandeira. Criticá-lo não é mais apontar uma falha; é uma heresia.
Sob uma lente de esquerda, esse fenômeno é particularmente danoso. Ele obscurece a luta de classes e a materialidade das políticas públicas. Enquanto se discute a imagem do gestor, deixa-se de discutir a destinação do orçamento, a desvinculação de receitas, o desmonte de programas sociais e o aprofundamento das desigualdades. A defesa cega de um nome próprio apaga a análise concreta de quem está sendo beneficiado ou prejudicado pelas ações (ou omissões) do governo.
A esquerda, em sua tradição, deve lutar contra essa personalização. Deve insistir, incansavelmente, que o que importa não é o homem – ou a mulher – no cargo, mas as políticas que ele implementa. Que a “gestão” não é uma marca pessoal, mas um conjunto de ações que têm consequências reais na vida do povo. O não repasse de verbas para o Fundo da Criança e do Adolescente, independentemente de quem esteja no poder, é uma violência de Estado contra os mais frágeis.
Precisamos resgatar a capacidade de nos indignarmos com a coisa pública. De voltarmos a enxergar por trás do nome do político a máquina estatal que ele comanda, e de cobrarmos resultados, não lealdade. Enquanto formos capazes de separar o abstrato “Governo” do concreto “Gestor”, e de perdoar no segundo o que condenamos no primeiro, estaremos sendo cúmplices do esvaziamento da democracia e da perpetuação de um sistema que privilegia a imagem sobre a substância, e o indivíduo sobre o coletivo.


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