A quem serve o freio no crescimento?

O editorial da Folha de S. Paulo prega “paciência” aos brasileiros, sugerindo que o desaquecimento é um mal passageiro para um bem futuro.

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Não é de hoje que os arautos do conservadorismo econômico vestem a capa da serenidade técnica para pregar uma receita amarga: a de que o crescimento do país deve ser contido, e, por fim, sacrificado no altar do equilíbrio fiscal abstrato. O recente editorial da Folha de São Paulo, intitulado como “O que a Folha pensa: Desaceleração do PIB é necessária neste momento”, classifica a desaceleração do PIB como “necessária”, é mais um capítulo dessa longa narrativa, que sempre parece servir aos mesmos interesses e penalizar os mesmos de sempre.

A tese central repousa sobre um velho conhecido: a inflação. O argumento é que a economia, “forçada além de sua capacidade” por gastos públicos, superaqueceu, exigindo o remédio amargo dos juros estratosféricos. O que essa análise convenientemente ignora é a natureza desse crescimento e, mais importante, para quem ele é realmente perigoso.

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O período recente de resultados positivos, que surpreendeu os analistas, não foi um “milagre” como ironiza o texto, mas sim o resultado direto da retomada de políticas que colocam o povo no orçamento. Foi o aumento real do salário mínimo, a recomposição de programas sociais como o Bolsa Família e o fomento ao crédito que reaqueceram o mercado interno. O que a elite econômica chama de “consumo forçado” é, na verdade, a população mais pobre comendo, vestindo e movimentando o comércio local. Esse sim é o verdadeiro “bom ambiente para investimentos”: um povo com dinheiro no bolso.

A pergunta que não quer calar é: a quem interessa desacelerar esse processo? A inflação, é claro, é um monstro que corrói a renda do trabalhador e deve ser combatida. Mas a cura proposta: estrangular a atividade econômica com juros de 15% ao ano. É invariavelmente mais dolorosa e seletiva do que a doença. Ela paralisa o crédito para a pequena empresa, inviabiliza o investimento produtivo e joga o desemprego na conta dos mais vulneráveis. Enquanto isso, o sistema financeiro lucra R$ 840 bilhões anuais com os juros da dívida pública, um valor que, como bem lembrado, daria para financiar dois anos do Bolsa Família. É realmente o gasto social que quebra o país, ou é a drenagem de riqueza para o topo da pirâmide através da rolagem de uma dívida pública cuja origem ninguém se atreve a discutir?

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A obsessão com o teto de gastos e a dívida pública como percentual do PIB é um fetiche que serve para mascarar uma escolha política: a de que o ajuste deve sempre vir do lado dos gastos sociais, nunca da receita. É mais fácil cortar verba da educação e da saúde do que taxar lucros e dividendos, revisar isenções fiscais bilionárias ou cobrar uma tributação justa dos super-ricos.

O editorial prega “paciência” aos brasileiros, sugerindo que o desaquecimento é um mal passageiro para um bem futuro. Essa é uma ladainha antiga. A “semiestagnação” dos anos que precederam a pandemia não foi um acidente, mas o projeto. É um projeto que condena o Brasil ao subdesenvolvimento perpetuo, onde a estabilidade dos indicadores macroeconômicos é mais importante do que a instabilidade na vida de milhões.

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Crescer não é o problema. O problema, para alguns, é quem se beneficia com esse crescimento. Um país que cresce com distribuição de renda, com fome zero e com indústria forte é um país que perturba a ordem estabelecida. O freio no crescimento não é necessário; é, como sempre foi, uma opção política. E é uma opção que o povo brasileiro não pode mais aceitar.

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