CPMI vira palco, mas quem deve dar a voz é a PF, não o advogado

Quando a opinião de uma testemunha vira manchete como se fosse sentença, o processo investigativo sério é substituído pelo julgamento midiático

📝 Este é um editorial do Portal Cubo.
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A CPMI do INSS tornou-se palco. E como todo bom espetáculo, precisa de personagens marcantes, acusações bombásticas e um roteiro que prende a atenção. O depoimento do advogado Eli Cohen, na segunda-feira, cumpriu esse papel com maestria. Nomes de sindicatos, confederações e, o que é mais grave, de políticos poderosos foram lançados ao público em um crescendo de dramaticidade. No entanto, uma pergunta crucial ecoa no vácuo deixado pela espetacularização: onde está a voz da única instituição que, por ofício, deveria estar conduzindo essa narrativa – a Polícia Federal?

Não é papel de um advogado, por mais bem-intencionado que seja, definir quem está “extremamente envolvido” em um esquema criminoso complexo. Seu papel é crucial: levar pistas, indícios e suas investigações particulares às autoridades. O papel de transformar essas acusações em prova robusta, capaz de sustentar processos e condenações, é da Polícia Federal e do Ministério Público. Quando a opinião de uma testemunha vira manchete como se fosse sentença, o processo investigativo sério é substituído pelo julgamento midiático, e aí mora um perigo tão grande quanto o crime em si.

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A esquerda progressista deve ser a primeira a levantar bandeiras contra a judicialização da política e a sua versão maligna, a politicização da justiça. A cena de políticos na plateia de uma CPI, pescando em águas turvas acusações contra adversários, é um espetáculo antigo e perigoso. A nomeação de figuras como o ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL) e o governador de Mato Grosso Mauro Mendes (União) em um relato de festa em resort (ainda que o advogado tenha se resguardado com um “sem juízo de valor”) não é informação. É insinuação. É cortina de fumaça.

A verdadeira investigação não precisa de holofotes. Precisa de sigilo, método e rigor técnico. A Operação Sem Desconto, da própria PF, que nasceu das denúncias iniciais do advogado, demonstra que há um caminho institucional e soberano para se apurar os fatos. É esse o caminho que deve ser fortalecido e cobrado. Enquanto deputados e senadores se debruçam sobre o espetáculo midiático, quem está nas trincheiras do trabalho real de investigação são os delegados e peritos, que devem ser blindados de qualquer pressão política.

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A narrativa construída na CPMI, infelizmente, segue um roteiro previsível: um herói solitário (o advogado) desvenda uma teia de vilões (os empresários e os lobistas) que têm conchavos com políticos (em sua maioria da oposição ou do centrão). É uma história que vende jornal e gera audiência, mas que simplifica demais um problema complexo. A corrupção é sistêmica e não tem endereço partidário único. Ela corrói instituições e se alimenta da fragilidade do Estado, não do colorido de siglas.

Portanto, a cobrança que se impõe não é por mais depoimentos espetaculosos. É por menos. É por que a CPMI cumpra seu dever de fiscalização e cesse a tentação de virar um tribunal midiático. A cobrança deve ser para que a Polícia Federal tenha autonomia, recursos e tempo para concluir seu trabalho com isenção. E a maior cobrança de todas é para que a sociedade não confunda o barulho das CPIs com o silêncio sério e produtivo da verdadeira investigação.

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A vítima, o aposentado, não precisa de espetáculo. Precisa de justiça. E justiça se faz com provas, não com acusações em rede nacional. Que a PF fale. O resto é ruído.

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