📝 Este é um editorial do Portal Cubo.
As opiniões aqui expressas refletem a visão do Cubo e têm como objetivo promover o debate crítico sobre temas relevantes à sociedade.
A recente CPI das Bets no Senado escancarou uma contradição gritante na forma como o Congresso brasileiro trata figuras públicas. De um lado, a influenciadora Virgínia Fonseca, que lucra com a divulgação de casas de apostas — atividade associada a danos sociais como vício e endividamento — foi recebida com tapete vermelho por parlamentares de direita. Do outro, ministras como Marina Silva, que defendem políticas ambientais e sociais, são alvo de ataques misóginos e deslegitimação. Essa dualidade revela não apenas uma seletividade política, mas também os valores prioritários de uma elite que protege interesses privados em detrimento do bem público.
Virgínia, que tem contratos milionários com plataformas de apostas, foi tratada como celebridade na CPI. Senadores como Cleitinho (Republicanos-MG) e Jorge Kajuru (PSB-GO) a elogiaram, pediram fotos e até gravações para redes sociais, transformando a oitiva em um “show monetizado” . Ela foi a CPI como testemunha e também por está envolvida na possíveis cláusulas que a beneficiariam com as perdas dos apostadores — a chamada “cláusula da desgraça” —, ela saiu sem maiores consequências, mesmo admitindo que seu contrato previa bônus caso aumentasse os lucros das casas de apostas (o que, por definição, depende das perdas dos usuários) .
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O contraste é chocante: enquanto Marina Silva foi interrompida e humilhada por exigir licenciamento ambiental para obras que impactam a Amazônia, Virgínia recebeu sorrisos e cumplicidade ao dizer que “não tem poder” para ajudar seguidores endividados pelo vício em apostas .
Enquanto Virgínia era paparicada, a ministra do Meio Ambiente foi hostilizada na Comissão de Infraestrutura do Senado. Senadores como Omar Aziz (PSD-AM) e Plínio Valério (PSDB-AM) a acusaram de “atrapalhar o desenvolvimento” ao exigir cumprimento de normas ambientais na BR-319. Marcos Rogério (PL-RO) chegou a mandá-la “ficar em seu lugar” — uma frase carregada de machismo e autoritarismo.
A diferença de tratamento não é coincidência: Marina representa um projeto de desenvolvimento sustentável que conflita com interesses do agronegócio, da mineração e de obras sem fiscalização. Já Virgínia, mesmo promovendo um setor que lucra com a vulnerabilidade social, não ameaça o status quo econômico que beneficia as elites.
O tratamento dado a Virgínia e Marina sintetiza a distorção da política brasileira: quem lucra com a exploração é acolhido; quem defende o interesse público, esmagado. Enquanto o Congresso bajula influenciadores que promovem vícios, ministras que lutam por direitos sociais e ambientais são tratadas como inimigas. Essa não é apenas uma questão de viés ideológico — é um sintoma de quem o sistema realmente serve.
Enquanto a direita aplaude o “empreendedorismo” de quem enriquece com apostas, quem trabalha pelo bem comum é chamado de “obstáculo”. A pergunta que fica é: desenvolvimento para quem?
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