Há uma contradição perversa no discurso de certos setores da imprensa que, enquanto se arvoram em defensores da liberdade de expressão, não hesitam em aplaudir a censura quando ela cala vozes incômodas – desde que, é claro, sirva aos seus interesses ou aos de seus patrões. O caso da jornalista Rosane de Oliveira expôs essa hipocrisia de forma cristalina: um colega de profissão chegou a comemorar sua condenação judicial como “bem feito”, apenas porque ela, em outra ocasião, afirmou que obrigar um vereador a retirar fake news não configura censura.
A ironia é grotesca. Quando um político espalha a mentira de que a Prefeitura de Canoas estaria roubando doações durante uma tragédia humanitária, a Justiça age corretamente ao exigir a retratação – trata-se de combater um crime que poderia paralisar a solidariedade em meio ao desastre. Mas quando Rosane revela os salários astronômicos de uma desembargadora, com base em dados públicos, ela é punida por “narrativa enviesada”. A pergunta que se impõe é: por que parte esse jornalista não enxerga – ou finge não enxergar – a diferença entre os dois casos?
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A resposta está na seletividade ideológica que domina certos veículos. Para eles, a “liberdade de imprensa” só é invocada quando protege seus aliados ou ataca seus adversários. O mesmo jornalista que hoje celebra a condenação de Rosane seria o primeiro a gritar “censura” se um bolsonarista fosse impedido de mentir. A regra é clara:
- Mentira de direita? “Direito à opinião!”
- Verdade de esquerda? “Jornalismo parcial!”
Essa lógica não é acidental – é estrutural. Uma imprensa que se alinha ao poder econômico e às elites judiciárias não pode tolerar reportagens que exponham seus privilégios. Rosane incomodou justamente por fazer o que o jornalismo deveria fazer sempre: investigar os poderosos.
A liberdade de imprensa que defendemos
A esquerda históricamente lutou por uma imprensa livre – mas livre de verdade, não refém de donos de conglomerados midiáticos ou de juízes que usam a toga para calar críticas. Liberdade de expressão não é sinônimo de licença para mentir, muito menos de imunidade para os poderosos.
Enquanto Rosane é perseguida por fazer jornalismo, os mesmos que aplaudem sua condenação seguem lucrando com a desinformação que inflama o ódio e enfraquece a democracia. O Brasil precisa urgentemente resgatar o jornalismo como instrumento de denúncia – não como arma de manipulação.
A escolha é clara: ou a imprensa está ao lado do povo, ou está a serviço de quem o oprime. E Rosane, com sua coragem, já mostrou de que lado está.
Jornalismo na encruzilhada: coragem ou conivência?
O caso Rosane Oliveira não é isolado – é sintoma de um jornalismo que, em larga medida, abandonou seu papel social. Enquanto profissionais como ela enfrentam processos por ousarem reportar verdades inconvenientes, muitos de seus colegas transformaram redações em escritórios de advocacia de luxo, dedicados a defender interesses corporativos e poderes estabelecidos.
Vivemos uma distorção perversa:
O jornalismo investigativo virou “ativismo” – Quando expõe falcatruas de juízes, empresários ou militares;
O ativismo disfarçado virou “jornalismo isento” – Quando repete acriticamente versões oficiais de autoridades conservadoras;
A omissão virou “prudência editorial” – Quando se cala diante de escândalos que envolvem aliados políticos.
Os mesmos jornalistas que hoje atacam Rosane foram coniventes com:
- O lawfare contra Lula;
- A campanha de desinformação sobre as vacinas;
- A narrativa golpista que preparou o terreno para 8 de janeiro.
O Caminho à Frente
Rosane fez mais pelo jornalismo brasileiro do que certas redações inteiras em décadas. Seu “crime” foi lembrar que nossa função é cutucar onças com vara curta – não lamber as botas do poder.
A hora é de escolha: continuaremos como escribas do status quo ou retomaremos o lugar histórico da imprensa como cão de guarda da democracia? Falta a certos “profissionais” perceberem que o bonde da história não espera os retardatários.
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