Falta de mão de obra ou falta de dignidade?

Diante da resistência dos trabalhadores, a solução proposta pelo empresariado é ainda mais perversa: o trabalho intermitente.

Enquanto as redes de supermercados batem recordes de lucro – o setor cresceu 6,5% em 2024, quase o dobro do PIB nacional –, empresários reclamam da “dificuldade” em preencher 35 mil vagas em São Paulo. A justificativa para o suposto desinteresse dos trabalhadores, no entanto, não é mistério: salários de fome e jornadas desumanas. Uma vaga em Nova Iguaçu (RJ) oferece R$ 1.600 para operador de caixa – valor que, após descontos, não paga nem o básico. O que os patrões chamam de “falta de mão de obra” é, na verdade, a recusa legítima de uma geração que já não aceita ser explorada.

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O mito da “flexibilidade” que esconde a precarização

Diante da resistência dos trabalhadores, a solução proposta pelo empresariado é ainda mais perversa: o trabalho intermitente. Nesse modelo, o empregado vira refém da conveniência do patrão – sem horário fixo, sem renda garantida e sem direitos. O STF, em mais uma decisão que privilegia o capital, validou esse retrocesso em 2024. Mas a baixa adesão no país mostra que os trabalhadores não estão caindo no conto da “modernidade” que mascara insegurança.

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Como explica a economista Allana Oliveira (UFU), esse sistema aprofunda a vulnerabilidade: sem saber quanto vão ganhar no mês, os trabalhadores não conseguem planejar suas vidas, dependem de migalhas e perdem acesso a benefícios como seguro-desemprego. É a uberização do emprego formal, um projeto que interessa apenas a quem lucra com a miséria alheia.

A conta que não fecha: R$ 1.400 contra o custo de vida real

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Vamos aos números: um operador de caixa em Nova Iguaçu recebe líquido R$ 1.404. Só de aluguel (R$ 900), cesta básica (R$ 432) e energia (R$ 100), os gastos chegam a R$ 1.432. Ou seja, antes mesmo de pagar transporte, remédios ou um lazer mínimo, o trabalhador já está no vermelho. Não é falta de vontade de trabalhar – é falta de condições para sobreviver.

A escala 6×1, outra aberração ainda comum no setor, só piora o cenário. Pesquisas mostram que essa rotina exaustiva está diretamente ligada ao adoecimento físico e mental, com aumento no uso de antidepressivos e analgésicos. “Esses trabalhadores vivem no limite, endividados e sem perspectiva”, alerta Flávia Uchôa de Oliveira, psicóloga social da UFF.

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Lucros recordes, direitos no chão

O discurso patronal de que “não há margem” para melhorias é desmentido pelos fatos. Enquanto os supermercados faturam bilhões, os funcionários são tratados como descartáveis. Sindicatos, como a CTB, pressionam pelo fim da escala 6×1 e por salários dignos. “A juventude não aceita mais ser humilhada”, afirma Márcio Ayer, da entidade.

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A saída não é precarizar ainda mais, como querem os empresários, mas garantir empregos estáveis, com salários que acompanhem o custo de vida e jornadas humanizadas. Enquanto isso não acontecer, a tal “falta de mão de obra” seguirá sendo, na verdade, uma falta de vergonha na cara de quem insiste em enriquecer às custas do suor alheio.

O Brasil precisa decidir: vai continuar servindo aos interesses de meia dúzia de bilionários ou vai garantir que o trabalho digno deixe de ser privilégio?

Com informações da Agência Brasil.

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