A polêmica em torno da nova camisa vermelha da Seleção Brasileira revela muito mais do que um debate sobre cores e tradição. Explicita o quanto o futebol, assim como outros aspectos da cultura nacional, foi sequestrado por uma narrativa reacionária que tenta impor um patriotismo de cartolina – vazio, excludente e alinhado a um projeto político de extrema direita.
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Nos últimos anos, a camisa amarela da Seleção foi apropriada como símbolo do bolsonarismo, transformando o manto que um dia uniu o país em um estandarte de divisão. Muitos torcedores, especialmente aqueles que resistiram ao governo anterior, passaram a enxergar o uniforme canarinho com desconfiança – não por rejeição ao futebol, mas por repúdio ao que ele passou a representar. A CBF, é claro, não está imune a essa realidade. A adoção do vermelho como cor alternativa pode ser, sim, uma jogada de marketing, mas também é um reflexo inevitável de um país que busca se reencontrar após anos de polarização tóxica.
O mais absurdo, no entanto, não é a mudança no uniforme, mas a reação histérica de políticos que, em vez de discutir os verdadeiros problemas do país, perdem tempo e dinheiro público tentando legislar sobre a cor de uma camisa. A mesma turma que nega o aquecimento global, defende a redução de direitos trabalhistas e ataca políticas sociais agora se mobiliza como se a “honra da pátria” estivesse em jogo por causa de um tom de vermelho. A pergunta que fica é: por que tanto medo?
Talvez porque o vermelho, historicamente associado à luta dos trabalhadores e às causas progressistas, incomode justamente aqueles que preferem um Brasil acorrentado ao passado. Ou porque, no fundo, sabem que o futebol – assim como a política – não lhes pertence mais. A seleção está longe de seu auge esportivo, e a torcida, cada vez mais distante. Enquanto isso, a cor que remete ao Pau-Brasil, árvore que batizou o país e cuja tinta vermelha era usada para tingir tecidos de luxo na Europa colonial, ganha espaço. Há ironia poética nisso: o mesmo vermelho que já foi extraído como riqueza explorada agora volta como símbolo de renovação.
Se há algo a ser criticado, não é a cor da camisa, mas o esvaziamento do futebol como paixão popular, transformado em commodity por patrocínios e interesses comerciais. Mas isso exigiria um debate sério sobre o esporte como negócio – e não performances baratas de quem quer transformar o Congresso em palanque de moralismo seletivo.
Enquanto a direita brasileira se desespera com uma camisa, o povo segue cobrando emprego, educação e um time que volte a dar orgulho dentro de campo. O vermelho pode não agradar a todos, mas certamente incomoda quem merece ser incomodado. E isso, por si só, já é um bom começo.


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